O comprometimento da renda das famílias brasileiras com dívidas chegou a 29,3% em maio. O número é alto, mas a história por trás dele é mais complexa do que parece.
Quase 30% da renda das famílias brasileiras vai para pagar dívidas. É o maior nível já registrado pelo Banco Central desde que a série histórica começou, em 2005. O número assusta, mas precisa de contexto para ser entendido corretamente.
Primeiro, o que está por trás do crescimento do crédito. O Brasil passou por um período de expansão significativa do crédito consignado — especialmente para aposentados e servidores públicos — e do crédito para consumo via cartão de crédito. Ambos cresceram acima da inflação nos últimos dois anos.
O cartão de crédito rotativo é o principal problema. A taxa média cobrada no rotativo chegou a 430% ao ano em maio — um número que, dito assim, parece absurdo, porque é. Nenhuma família consegue pagar uma dívida que cresce a esse ritmo. O resultado é que muitos brasileiros ficam presos num ciclo de rolagem de dívida que nunca se resolve.
O Banco Central tentou limitar o rotativo em 2024, mas a medida teve efeito limitado. As instituições financeiras simplesmente migraram parte dos encargos para outras modalidades. O problema estrutural — juros altos combinados com educação financeira baixa — continua sem solução.
Os dados do Banco Central mostram que o endividamento é mais concentrado nas faixas de renda mais baixa. Famílias com renda de até dois salários mínimos comprometem, em média, 38% da renda com dívidas. Para famílias com renda acima de dez salários mínimos, esse número cai para 22%.
Isso não é coincidência. Famílias de menor renda têm menos acesso a crédito barato e mais dependência de modalidades caras como o cartão rotativo e o cheque especial. A desigualdade no mercado de crédito é um reflexo — e um amplificador — da desigualdade de renda.
O recorde de endividamento de 2025 não é uma surpresa para quem acompanha os dados. É o resultado previsível de uma combinação de juros altos, renda estagnada e expansão do crédito para segmentos vulneráveis. Mudar esse quadro exige mais do que uma circular do Banco Central.
Jornalista com 12 anos de experiência em cobertura econômica. Especializada em crédito, consumo e finanças pessoais. Colabora com o Cais Econômico desde sua fundação.